O momento é agora
por Luciana M. S. Ferraz
Você já experimentou um dia totalmente centrado naquilo que você está fazendo, na sua respiração, nos seus pensamentos, em cada tarefa que aparece à sua frente? E você se lembra da sua sensação à noite? Foi de um dia bem vivido, pleno... Dentre as muitas histórias de mestre e discípulo tem uma que diz que o aprendiz chegou ao guru e perguntou-lhe:
- Mestre, qual a arte para viver plenamente?
E a pergunta foi devolvida:
- Diga-me de que lado da porta de entrada você colocou seu guarda chuva?
O discípulo incrédulo insistiu na pergunta e voltou a ouvir a mesma resposta.
- Sei lá de que lado coloquei o guarda-chuva, disse o discípulo.
Então o mestre respondeu:
- Com esta atitude você nunca alcançará a satisfação plena, pois o segredo está em viver cada momento num estado de presença, nas tarefas mais insignificantes.
Deduz-se deste exemplo, que o agora é o tempo mais importante que existe, simplesmente porque é o único que existe. O presente é o espaço eterno onde se desenvolve a nossa vida. Nunca houve um tempo em que nossa vida não acontecesse no agora. O agora é o ponto para entrarmos em contato como o nosso ser eterno, pois este só pode ser experimentado quando estamos totalmente presentes.
Quando nos lembramos do passado ativamos um traço de memória de algo que aconteceu no agora daquele momento. Estou recriando o passado, as lembranças, as sensações no agora, portanto isto é presente e não mais passado. Tudo o que vivi, que pensei, que falei, que fiz formaram o que sou hoje. Portanto, o passado está presente no presente. O passado não existe, mas apenas o que formou no presente.
E o futuro é um presente imaginado, uma projeção da mente. Quando pensamos no futuro estamos fazendo isto no agora, o que mostra que passado e futuro não tem vida própria. As realidades do passado e do futuro são emprestadas do presente.
Quando estamos presentes podemos permitir que as coisas aconteçam como são, sem que tenhamos que controlá-las ou sair de nós para impedir a peça da vida de fluir como tem que fluir.
Viver no presente é libertar-se do tempo: de ser escravo da memória ou da antecipação, de relutar viver o que é, para viver algo que gostaríamos que fosse.
Isto acontece porque o passado nos dá uma identidade falsa de segurança e o futuro uma promessa ou esperança. Ambos são ilusões.
O segredo está em desviar o foco do nosso ego para o nosso eu e do tempo para o estado de presença.
É isto o que significa a máxima: eu sou aquilo que fui e aquilo que serei. Seu eu entender profundamente isto, eu saio da roda do sofrimento que é causado por estarmos sempre fora do estado de ser presente. O sofrimento precisa do tempo para sobreviver. Na experiência do eu verdadeiro e do agora ele se dissolve.
Quando digo: se não agora então nunca, é exatamente isto que está implícito. Se eu não vivo algo agora, isto nunca fará parte da minha vida no futuro.
Uma das maneiras de perdermos o sentido do agora é vivermos sempre com um objetivo, sem darmos atenção do processo ou sem vivenciarmos o caminho. Até eu obter o que quero vivo intensa e compulsivamente de olho na meta e muitas vezes não experimento o que está acontecendo. Por exemplo: numa viagem fico fixo em chegar num determinado lugar, não vivo o percurso, a experiência do agora que me leva até o meu destino.
A pessoa presa ao ego diz: quando isto ou aquilo acontecer estarei bem. O pensamento quando desconectado da consciência se torna destrutivo. O ego é um falso eu interior enraizado na consciência de que sou o corpo e os atributos físicos.
O eu verdadeiro é o ser enraizado na consciência de que sou a alma, o ser eterno. As necessidades do ego são intermináveis. Ele está sempre num estado de carência e medo. Muitos de nós de nós identificamos nosso eu interior aos nossos problemas e por isso não queremos nos desfazer deles. É por isso que investimos tanto nas mágoas e sofrimentos do passado.
Como diz um poeta do centro-oeste:
"O que vem do eu é céu,
O que vem do ego é cego."
Para sair das armadilhas do ego precisamos ser um observador desapegado; aquele que olha mas não vê, aquele que ouve mas não escuta, ou seja, aquele que usa só jogos do ego para transitar na vida social, no trabalho, mas de maneira pró-forma.
Quando um erro acontece, ele reconhece que não foi o eu que errou e sim o ego, movido por padrões reativos e hábitos negativos assim, ele minimiza o eu a sofrer as conseqüências. Culpar-se significa identificar-se com o ego e dar ainda mais energia a ele, enquanto observar e perceber retira a energia dele, o enfraquece. Culpar-se nos faz ficarmos presos no passado, no que aconteceu.
Observar nos remete ao infinito, é libertador, porque ao observar-me permaneço presente em mim e sou devolvido ao estado do ser.
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N.A. - Este texto foi escrito inspirado na leitura do livro O Poder do Agora, de Eckhart Tolle.
Luciana M. S. Ferrraz é Socióloga e Coordenadora Nacional da OBK.
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